Eu construiria um app de apostas? A ética de dizer não como desenvolvedor

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Depois de quatro posts explicando a matemática, o design de interface, o uso de dado e a infraestrutura por trás de apps de apostas, chego na pergunta que mais me interessa como profissional: eu construiria um sistema desses? A resposta é não, e vale explicar o porquê — não como moral abstrata, mas como decisão de carreira concreta.

O código não é neutro

É comum ouvir que "quem programa só implementa o que o produto pede" — uma forma de terceirizar responsabilidade. Discordo. Quem escreve o algoritmo de odds, quem desenha a notificação de retenção, quem estrutura o banco de dados que identifica o usuário mais vulnerável para direcionar bônus, participa ativamente do resultado daquele sistema. O Código de Ética da ACM, a maior associação de profissionais de computação do mundo, é explícito sobre isso: evitar dano é uma responsabilidade do próprio profissional, não só de quem contrata.

Onde eu traço a linha

Não recuso qualquer sistema que envolva gamificação ou retenção — uso essas mesmas técnicas no Simulado Solidário para incentivar estudo, o que discuti no post sobre dark patterns. A linha que traço é sobre o resultado esperado para o usuário: uma técnica que ajuda alguém a manter um hábito bom é diferente de uma técnica desenhada para extrair dinheiro de alguém em um momento de vulnerabilidade, mesmo que a implementação técnica seja parecida.

Por que escrevi essa série

Entender a engenharia por trás de apps de apostas — a matemática do house edge, a manipulação de UX, o uso de dado comportamental, a infraestrutura de baixa latência — não é só crítica de produto. É também um lembrete de que quem programa tem mais poder sobre o comportamento das pessoas do que costuma admitir, e essa responsabilidade não desaparece só porque alguém mais pediu para escrever aquele código.

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